Gravidez aos 17 anos de um bebê com Down ensina sobre o amor: conheça Enzo e Beatriz

Beatriz Bombazaro e Maycon Fonseca, embora novos, ela com 20 anos e ele com 23, já constroem uma história linda, que esbarra em muita falta de empatia e acolhimento, mas é recheada de conquistas e amor, muito amor.

O casal é pai de Enzo Asafe, um menininho de 3 anos com Síndrome de Downque, desde que começou a ser formado na barriga de sua mãe, traz ensinamentos – para o casal e todos que vivem em volta e, agora, para todos nós. A trajetória dessa família ensina muito sobre respeito e revisão dos preconceitos, daqueles mais profundos, que insistimos em não reconhecer e assumir.

A gravidez

Beatriz engravidou na adolescência. Ela tinha 17 anos, estava entrando na faculdade e uma gestação não estava em seus planos. Como conta, a gestação por si só já foi um choque.

Entre as lamentações naturais da descoberta, uma fala que, ironia do destino ou não, marcou. “Quando engravidei, como era muito nova, na época comentei com meu marido: ‘Pelo menos uma criança com Síndrome de Down não vou ter, né’. Depois a descoberta foi um tapa na minha cara”, conta. A Síndrome é um distúrbio na divisão celular que afeta o cromossomo 21. O quadro é mais comum em mulheres que engravidam tardiamente, depois dos 35 anos.

A descoberta da Síndrome de Down

“Foi tudo muito rápido”, conta a mãe. Beatriz descobriu que Enzo teria Síndrome de Down no segundo mês de gestação, em um ultrassom de rotina, antes mesmo de descobrir o sexo do bebê.

A confirmação veio logo em seguida, por telefone – e essa talvez tenha sido a primeira experiência do que viria pela frente, da falta de tato e cuidado das pessoas. “Ligaram e falaram o resultado na maior tranquilidade. Eu sei que é normal para eles lidarem com isso, mas na época tudo era muito novo para mim. Fiquei em choque”, conta.

O choque foi tamanho que Beatriz e o marido não comentaram com ninguém além da família sobre a condição do bebê. “Não consegui aceitar de cara porque uma gestação já não é fácil. Com essa notícia, ficou ainda mais difícil”, comenta. As pessoas só foram saber da condição de Enzo depois de seu nascimento. “Foi um choque para 95% das pessoas”, relembra.

O que colaborou para a dificuldade em aceitar a situação, como explica Beatriz, foi a maneira equivocada com que a sociedade mostra as pessoas com Down. “As pessoas mostram ao mundo que o portador é uma pessoa completamente dependente, boba, então eu passei a enxergar isso de maneira ruim, fiquei depressiva”, comenta.

Mas a mãe não teve alternativas e optou pelo caminho do conhecimento para aceitar sua condição. “Comecei a pesquisas ONG’s, a entrar em grupos de mães para trocar, conversar, buscar informações, ler e aí descobri que não é esse monstro que a sociedade mostra”, explica.

Enzo chegou ao mundo

Para a alegria da família, Enzo nasceu sem nenhuma alteração cardíaca – na maioria das vezes crianças com a síndrome nascem com problemas cardíacos.

Mas, como a condição afeta o desenvolvimento muscular, o primeiro ano da família foi exaustivo. Foram meses levando o pequeno na fonoaudióloga e na fisioterapeuta para estimular a sustentação corporal e a sucção.

A amamentação foi um capítulo especial. Como o bebê nasceu com a musculatura fraquinha, não conseguia sugar o peito. “Foram 20 dias de choro. Eu fiz de tudo para ele conseguir mamar porque sabia que o leite era muito importante. Colocava água de coco em uma seringa para ele animar um pouquinho e depois insistia de novo com ele no peito. Foi difícil. Muitas mães não conseguem amamentar. Mas eu consegui. Amamentei até os 9 meses”, comemora.

O pequeno iniciou os tratamentos com 18 dias e até seu primeiro ano, Beatriz o levava nas terapias quatro vezes por semana, além das visitas aos médicos e realização de exames.

Enzo hoje tem desenvolvimento motor normal. Ele andou na idade esperada e agora a família espera ele falar. “Se colocar uma outra criança da mesma idade ao lado dele, dá para ver a diferença. A criança já fala, gesticula. Ele entende, se eu peço para ele fazer, ele faz. Mas ele ainda não fala muito. Ele começou a falar ‘mamãe’, ‘papai’, ‘vovó’, ‘Pepa’ e ‘água’”, conta com orgulho.

Desafios de uma criança com Síndrome de Down: físicos e sociais

Como a síndrome confere à pessoa uma imunidade mais frágil, Enzo precisa de cuidados intensivos na prevenção de doenças e muitas vezes foi internado. Aos poucos, seu corpo começa a ganhar anticorpos e essa vigilância diminuirá a longo prazo.

Porém, a maior dificuldade da família é lidar com a falta de empatia e respeito das pessoas “A gente acha que não tem preconceito. Mas tem sim”, afirma Beatriz.

Desde o começo, quando decidiu contar sua história, a jovem sentiu na pele o que enfrentará para o resto da vida. “Para contar que o Enzo tinha a síndrome, fiz um texto no Facebook. Recebi muita mensagem do tipo: ‘Você tão nova tendo que carregar um peso desse’. Isso acabou me machucando muito mais”, relembra.

Com Enzo ainda bebê, mais uma vez a família teve que enfrentar um desafio desconfortável. “Uma grávida próxima da minha família chegou em mim e falou: ‘Acabei de voltar do exame de ultrassom e meu filho é perfeito’. Isso mexeu muito comigo. Ela quis dizer que a minha gravidez não foi perfeita?”, questiona.

Como conta, os olhares de estranhamento e de pena aumentam a medida em que Enzo cresce. As situações são infinitas: perguntas inconvenientes, como se é contagioso, se criança ficar perto vai pegar, comentários de que ele é feio, pais que afastam crianças de perto ou tiram do mesmo local de convivência quando ele chega para brincar ou tenta interagir. “Eles falam para a criança sair para que o Enzo não bata ou morda. Mas qualquer criança pode fazer isso. É coisa da idade. Mas, só por ter a síndrome, ele é rejeitado pelos pais. Essas coisas do dia a dia machucam um pouquinho”, conta.

Nessas horas, o apoio vem do pai do pequeno, que tem papel essencial na condução dessas situações. “Ele consegue lidar com a situação de maneira mais saudável. Eu ajo com emoção e nem sempre consigo explicar. Meu marido já conversa, explica”, comenta.

Essa maneira racional de enfrentar as situações, de acordo com Beatriz, é até trabalhada em casa. “Antes de sair a gente pensa nas situações que podem acontecer, como vamos lidar”, conta.

Devido a mãe publicar muitas fotos de Enzo no Instagram, ele já é conhecido na sua cidade, Cuiabá, capital do Estado do Mato Grosso. Isso, na visão de Beatriz, faz com que as pessoas sejam mais acolhedoras. Como conta, elas perguntam dele, querem ver fotos. “Sei que por trás ele ainda não é aceito. Mas, no geral, hoje em dia, é bem melhor”, explica.

Enzo é sinônimo de amor

Para Beatriz, o amor do pequeno e o apoio da família são essenciais. Este ano, Enzo vai para escola e a mãe acredita que a convivência com outras crianças pode acelerar o desenvolvimento dele.

Mas, no fim, todo mundo vai ganhar. Enzo vai pode se espelhar em seus amiguinhos na fala e comportamento e se desenvolver e todas as outras crianças vão aprender sobre tolerância, empatia e respeito às diferenças. A família está ciente de que precisará do apoio dos pais: “Quero mostrar para os pais que eles têm que ensinar que todos são iguais. Ele é uma criança como todas as outras, só tem um pouquinho de dificuldade”, esclarece.

Beatriz e Maycon foram os primeiros a crescer com a chegada do pequeno. Maturidade, responsabilidade e paciência foram os seus maiores ganhos até agora. “Enzo me fez ter maturidade e paciência para lidar com a situação, porque no primeiro olhar é assustador, você tem que tirar um pedacinho da sua vida para o outro”, comenta.

Além disso, a forma de encarar a vida e de valorizar momentos e posses também mudou. “Depois da chegada do Enzo, tudo na minha casa se transformou. Eu não prestava atenção no mundo que eu vivia. Agora, vejo as pequenas coisas da vida, do que elas são feitas. A gente precisava de coisas grandiosas para ficar feliz. Hoje uma pequena conquista dele a gente comemora muito, fica muito feliz, faz festa”, conta.

A chegada do menino também mudou Beatriz para o mundo. “Consigo pensar no próximo, me colocar no lugar do outro”, acrescenta.

Para dividir sua história com outras famílias, ela criou uma conta no Instagram, a “Crescendo com Enzo Asafe”. Seu foco é desmitificar a síndrome, fazer com que as pessoas deixem de olhar para pessoas na situação dele com dó ou pena. “Ele é muito capaz de tudo e eu mostro isso no dia a dia”, comenta.

Além disso, mostrar que qualquer família está suscetível a viver a mesma experiência, independente da idade, é outro objetivo de Beatriz. “As mulheres mais novas precisam tirar esse preconceito da cabeça para que, caso aconteça o que aconteceu comigo, não passem pelo que eu passei”, explica.

Mudar a maneira como as pessoas enxergam as pessoas com Síndrome de Down também está entre suas intenções. “Eu já passo por essa situação [de preconceito]. Mas, eu não quero que ele passe. Quero trabalhar para que ele não sofra com isso. E defendo não só o respeito às pessoas com síndrome, mas que todo mundo olhe para o outro como um capaz”, conta.

Lucas Rodrigues
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